Mais uma noite de cor melancólica. As paredes do bar parecem cobertas de gelo [...]. Ao redor, pessoas-zumbis a emudecer o lugar com suas palavras em tons nebulosos. A fumaça dos seus cigarros me perturba - suja o gosto da minha bebida. Prefiro, pois, ouvir um tal de Cartola que está a derramar palavras encantadoramente nostálgicas naquela vitrola, a ter que ouvir esse jovem rapaz que declama, veja só... Um poema parnasiano? E, cá estou... Mais uma vez sozinho, nessa suntuosa noite triste e boêmia.
Aquele meu amigo que se dizia confuso por achar que amava demais, quem diria, descobriu que pouco amou na vida. Conheceu uma mulher um pouco mais velha, e hoje vivem juntos, sem ao menos saber se realmente a ama – diz que se sente melhor assim. Os garçons até hoje me perguntam pelo seu paradeiro. Digo que viajou para uma terra distante, mas tão distante que nem mesmo sabe se lá chegou.
- Se tem ele razão, quem vai saber?
Mas isso só me fez pensar numa coisa: quem realmente ama demais nessa história, sou eu? Sou eu! E, agora, vivo a me perguntar: que pecado cometi para carregar comigo tanto amor, tanta paixão, até mesmo por aquelas que verdadeiramente não estimo? E tudo isso me põe a questionar o porquê deu ser assim - talvez seja pelo fato de vê-las pelas lentes sensíveis do meu olhar.
- Não consigo vê-las por partes; antes, prendo o meu olhar no seu andar, que em conjunto com o seu quadril dançante, conduz os meus olhos ao fascínio; prendo-me, ainda, no flutuar dos seus cabelos esvoaçantes e cheirosos , que ao meu olfato só o perfume feminino sabe abraçar; é na voz que me toca os lábios, que antes me disponho a ver o lindo corpo-mulher.
Muitos me questionam como eu posso ter tantos amores. Amores? A verdade é que não consigo convergir os meus sentimentos a um único ser, a um único amor. - Não pode ser isso amar! Na verdade, creio que essa problemática gire em torno da própria mulher.
- Não há outra explicação!
Nada me deslumbra mais do que a voluptuosidade do seu olhar, cheio de querer, cheio de desejo. E é isso que me estasia, essa arma que, ao mesmo tempo, de passiva nada tem; antes, hipnotiza, tortura o coração até que ele se renda, sem nenhuma resistência, a esse gesto tão encantador.
E aqueles sonhos de outrora... Começam a criar sentido para mim; aquela que me aparece “sempre linda”, sem rosto, parece ser justamente a carne de todos esses sentimentos de minha vida. E, enfim, começo a perceber que todos aqueles sonhos foram vividos.
Permanece em mim, portanto, a esperança de encontrar o que tanto procuro, de encontrar todas aquelas questões que me habitam. Entretanto, enquanto não tenho como respondê-las, fico aqui a beber mais um drink, e, quem sabe, a flertar com essa bela moça da mesa ao lado, que está a me desarmar com o seu olhar...
(Raphael "PH" Ramos)
E aqueles sonhos de outrora... Começam a criar sentido para mim; aquela que me aparece “sempre linda”, sem rosto, parece ser justamente a carne de todos esses sentimentos de minha vida. E, enfim, começo a perceber que todos aqueles sonhos foram vividos.
Permanece em mim, portanto, a esperança de encontrar o que tanto procuro, de encontrar todas aquelas questões que me habitam. Entretanto, enquanto não tenho como respondê-las, fico aqui a beber mais um drink, e, quem sabe, a flertar com essa bela moça da mesa ao lado, que está a me desarmar com o seu olhar...
(Raphael "PH" Ramos)

